{"id":974,"date":"2019-12-25T08:26:59","date_gmt":"2019-12-25T08:26:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.acaoparamita.com.br\/?p=974"},"modified":"2023-03-27T08:19:52","modified_gmt":"2023-03-27T11:19:52","slug":"desapegamos-do-ego-quando-estamos-de-fato-prestando-atencao-no-outro-diz-escritor-zen-budista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaoparamita.com.br\/en\/desapegamos-do-ego-quando-estamos-de-fato-prestando-atencao-no-outro-diz-escritor-zen-budista\/","title":{"rendered":"&#8216;Desapegamos do ego quando estamos de fato prestando aten\u00e7\u00e3o no outro&#8217;, diz escritor zen budista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:right\">(por Juliana Di\u00f3genes\/O Estado de S\u00e3o Paulo)<\/p>\n\n\n<p>Aten\u00e7\u00e3o. Sua aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 100% neste texto ou nas contas para pagar, na chatea\u00e7\u00e3o com algu\u00e9m ou nas preocupa\u00e7\u00f5es com o trabalho? E em que momento do dia a sua aten\u00e7\u00e3o deixa de ser para si mesmo e passa a ser para o outro, para ouvi-lo, entend\u00ea-lo e at\u00e9 mesmo am\u00e1-lo, sobretudo quando o outro \u00e9 um desconhecido?<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a era da autoajuda e do coaching, caminhos autocentrados no eu, o desafio de nos tornarmos pessoas melhores para os outros \u00e9 a proposta do escritor Alex Castro. Em outras palavras, sai de cena a autoajuda e entra a &#8220;outroajuda&#8221;, termo criado por Castro, escritor de fic\u00e7\u00e3o, zen-budista e membro da Ordem dos Pacificadores Zen.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, <em>Aten\u00e7\u00e3o.<\/em> (Rocco) foi lan\u00e7ado no \u00faltimo fim de semana. O pr\u00f3ximo lan\u00e7amento ser\u00e1 em Belo Horizonte, no dia 6 de abril, \u00e0s 18 horas, na Livraria Leitura do Shopping Boulevard.<\/p>\n<p>Sim, o t\u00edtulo tem um ponto final: a ideia \u00e9 intrigar e incomodar. &#8220;Achei que se colocasse s\u00f3 Aten\u00e7\u00e3o ia parecer placa de aviso. Al\u00e9m disso, o ponto cada vez mais virou agressivo. Falamos muito no chat e n\u00e3o colocamos o ponto final. Muitas vezes, quando pomos o ponto final, estamos dando \u00eanfase ao fim do papo. \u00c9 mais enf\u00e1tico. Ent\u00e3o, coloquei o ponto para ser menos fofo. N\u00e3o \u00e9 um livro de fofura. \u00c9 um livro pol\u00edtico, para incomodar. Ent\u00e3o, \u00e9 aten\u00e7\u00e3o ponto&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Inspirado na filosofia de Simone Weil e na pr\u00e1tica do budismo engajado, o livro explora a aten\u00e7\u00e3o como instrumento de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e n\u00e3o como ferramenta \u00fanica e exclusiva do pr\u00f3prio autodesenvolvimento.<\/p>\n<p>Na obra, Castro &#8211; que dispensa a classifica\u00e7\u00e3o de &#8220;mestre&#8221; &#8211; apresenta 20 pr\u00e1ticas que podem ser aplicadas diariamente e que procura realizar. Entre elas: exercer a n\u00e3o opini\u00e3o, manter um olhar generoso, acumular menos e aceitar a realidade. Segundo o escritor, o livro \u00e9 de fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se baseia necessariamente em experi\u00eancias pessoais.<\/p>\n<p>&#8220;Sou um artista, escritor de fic\u00e7\u00e3o e contador de hist\u00f3rias. No livro, conto hist\u00f3rias em primeira pessoa que n\u00e3o necessariamente aconteceram comigo. O livro \u00e9 feito de ideias. A proposta \u00e9 que o leitor desencane de mim e pense no sentido daquelas pr\u00e1ticas para a vida dele&#8221;, diz.<\/p>\n<p><em>Aten\u00e7\u00e3o.<\/em> se resume em uma frase: sem aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 cuidado. Sem aten\u00e7\u00e3o ao outro, voc\u00ea n\u00e3o pode cuidar dele &#8211; do contr\u00e1rio, vai achar que est\u00e1 ajudando, praticando caridade, mas na verdade estar\u00e1 somente abastecendo o pr\u00f3prio ego, defende Castro. E cuidar dos outros, para o escritor, \u00e9 um ato pol\u00edtico. Por vezes, n\u00e3o \u00e9 preciso dinheiro, doa\u00e7\u00e3o de roupa ou de sangue: basta aten\u00e7\u00e3o ao outro.<\/p>\n<p>Em conversa com o <strong>Estado<\/strong>, o escritor falou fez cr\u00edticas \u00e0 onda de autoajuda &#8211; que, para ele, t\u00eam nos feito olhar para n\u00f3s mesmos e nos isolarmos sem observar o vizinho &#8211; e tamb\u00e9m ao ideal da empatia, que estariam nos despertando simpatia somente aos que s\u00e3o semelhantes a n\u00f3s, e n\u00e3o ao diferente.<\/p>\n<p><strong>1. Como surgiu a ideia do livro e por que chamar aten\u00e7\u00e3o para o outro?<\/strong><\/p>\n<p>Meu livro anterior se chama Outrofobia. \u00c9 um livro sobre racismo, machismo gordofobia, transfobia, e outros tipos de preconceito. Inventei esse nome outrofobia porque muitas vezes eu queria falar sobre todos esses preconceitos ao mesmo tempo porque s\u00e3o muito parecidos e n\u00e3o tinha um termo que englobasse todos. Criei o termo outrofobia, que \u00e9 o conjunto de fobias que inclui todos eles. E comecei a escrever bastante sobre o assunto. Tamb\u00e9m comecei a perceber que toda outrofobia sempre acaba sendo fundada em uma falta de aten\u00e7\u00e3o ao outro. A outrofobia se funde em um privil\u00e9gio e o privil\u00e9gio \u00e9 o que voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea. Se sou um homem, posso fazer cooper \u00e0s 5 horas da manh\u00e3 sem pensar duas vezes. Mas para quem n\u00e3o \u00e9 homem, isso \u00e9 um privil\u00e9gio. Porque uma mulher, para fazer cooper \u00e0s 5 horas da manh\u00e3, tem que pensar numa estrat\u00e9gia. Ser\u00e1 que \u00e9 seguro? Tenho companhia? Para come\u00e7armos a trabalhar a outrofobia, precisamos enxergar o outro. Portanto, se voc\u00ea \u00e9 homem, provavelmente nunca foi cantado na rua. Ent\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o sabe como \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o de andar na rua e levar cantada. Como vai superar isso? \u00c9 prestando aten\u00e7\u00e3o no que a mulher est\u00e1 passando. Quando a mulher fala de uma viol\u00eancia que ela viveu, \u00e9 para ouvir. Outro exemplo: se voc\u00ea branco, provavelmente levou duas duras da pol\u00edcia em toda a vida, se \u00e9 que levou. Seu amigo negro leva dura duas vezes por semana. Eu que sou branco nunca tive acesso a isso. Como vou trabalhar essa quest\u00e3o? No m\u00ednimo, o primeiro passinho \u00e9 prestando aten\u00e7\u00e3o nessas pessoas que t\u00eam experi\u00eancias que eu n\u00e3o tenho, que passam essa viol\u00eancia pela que eu n\u00e3o passo, que sentem dores que eu n\u00e3o sinto. Aao escrever sobre essa outrofobia, eu vivia sempre batendo nessa quest\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o, a aten\u00e7\u00e3o ao outro como primeiro passo para a gente poder come\u00e7ar a pensar no que vai fazer efetivamente.<\/p>\n<p>A outrofobia \u00e9 o problema, a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a ferramenta e o cuidado \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o. Preste aten\u00e7\u00e3o ao outro para descobrir como vai cuidar. Somente por meio da aten\u00e7\u00e3o \u00e0s outras pessoas \u00e9 que a gente vai saber como cuidar delas. Muita gente quer cuidar sem prestar aten\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea cuida do outro sem prestar aten\u00e7\u00e3o ao outro, acaba fazendo coisas nocivas. Mas se voc\u00ea presta aten\u00e7\u00e3o e n\u00e3o cuida,adianta nada. \u00c9 como dar like no Facebook. Os dois t\u00eam que andar juntos. A gente presta aten\u00e7\u00e3o para cuidar. Ao come\u00e7ar com textos pol\u00edticos, comecei a ver que prestar aten\u00e7\u00e3o ao outro \u00e9 o primeiro passo necess\u00e1rio para qualquer a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O budismo engajado, que defende estar presente com muito engajamento em prol do outro, me deu bases para poder criar essas minhas pr\u00e1ticas de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>2. Voc\u00ea pode dar um exemplo sobre como cuidar do outro sem prestar aten\u00e7\u00e3o nele pode ter consequ\u00eancias nocivas?<\/strong><\/p>\n<p>Se voc\u00ea cuida sem prestar aten\u00e7\u00e3o, vai estar cuidado dos seus pr\u00f3prios problemas. Para cuidar do outro, tem que estar plenamente com o outro. Por exemplo, esses dias eu estava andando com uma amiga que estava com um sandu\u00edche do Mc Donald&#8217;s e n\u00e3o quis mais. Ela ofereceu para um mendigo, que negou porque disse que n\u00e3o comia Mc Donalds. Ela ficou enraivecida. N\u00e3o considerou em momento algum o gosto dele. Ela s\u00f3 queria desovar. Se a pessoa gostasse ou n\u00e3o, n\u00e3o era um problema dela. A empatia est\u00e1 muito na moda hoje. Falam muito de empatia o tempo todo. No livro, n\u00e3o falo contra a empatia. Falo que a empatia por si s\u00f3 n\u00e3o adianta nada. A gente precisa direcionar a empatia. O grande problema da empatia \u00e9 que ela \u00e9 muito emotiva, passiva e ativada pela proximidade. A gente sente empatia se morrem 200 mil pessoas em uma enchente na China. Isso \u00e9 ruim. Mas se morrem duas mil pessoas atropeladas onde a gente mora, o problema \u00e9 muito maior porque \u00e9 o nosso bairro, eram as pessoas para quem a gente dava oi, que morreu naquele ch\u00e3o onde paso todo dia. A empatia \u00e9 muito f\u00e1cil de se manipular. \u00d3bvio que a gente sabe que 200 mil pessaoas morrendo na China \u00e9 muito pior do que duas mil na rua. Mas \u00e9 mais f\u00e1cil se emocionar mais por pessoas que morreram na nossa rua. A empatia tem um limite. Se a gente n\u00e3o treinar essa empatia para olhar para o outro e para fora, a gente sempre vai ter empatia pelas pessoas que parecem com a gente, que falam a nossa l\u00edngua. Ter mais empatia n\u00e3o vai mudar o mundo porque vou continuar tendo empatia pelas pessoas que sempre tive, s\u00f3 que um pouco mais. \u00c9 muito poss\u00edvel eu ir para uma cabana no meio do mato, isolado, sem contato, e eu sentir de verdade toda a empatia por todos os problemas do mundo. Posso ficar no meio do mato borbulhando de empatia. A empatia \u00e9 legal e importante, mas 1. Se for voltada para outro e 2) Se levar a alguma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, social e concreta. \u00c9 por isso que devemos tirar o foco da empatia e falar mais de aten\u00e7\u00e3o e cuidado. Voc\u00ea presta aten\u00e7\u00e3o ao outro para poder cuidar do outro. E quando falo que cuidar sem aten\u00e7\u00e3o pode ser nocivo ou n\u00e3o, \u00e9 ter muitas vezes a necessidade grande de ajudar e fazer coisas pelos outros, mas nunca perguntar para esse outro se aquilo \u00e9 o que ele quer, \u00e9 o que outro precisa. No livro, eu falo pr\u00f3-generosidade. A caridade \u00e9 sempre de cima para baixo porque voc\u00ea sempre \u00e9 caridoso com algu\u00e9m que est\u00e1 abaixo de voc\u00ea, mas generoso n\u00e3o. Voc\u00ea pode ser generoso inclusive na derrota. Voc\u00ea pode ser generoso com a pessoa que voc\u00ea acha que est\u00e1 acima de voc\u00ea. O fato de ser generoso com o outro n\u00e3o implica uma rela\u00e7\u00e3o de poder ou at\u00e9 discrep\u00e2ncia social. No livro, tem uma pr\u00e1tica que \u00e9: ter um olhar generoso. Como a gente consegue pensar no outro de forma generosa, que \u00e9 vendo-o como uma pessoa?<\/p>\n<p><strong>3. Em quais experi\u00eancias voc\u00ea se baseou para criar as 20 pr\u00e1ticas de aten\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Como falei, comecei escrevendo sobre outrofobia e comecei a dar palestras sobre o assunto. Antes das palestras, eu perguntava quem aquelas pessoas eram, por que estavam ali, o que as tinha trazido ali. E isso era muito mais legal do que o que eu tinha para falar. Aquelas coisas que eu tinha pra falar, de machismo e racismo, j\u00e1 estavam na Internet, em pesquisas e no livro, mas o que cada uma daquelas pessoas trazia da sua pr\u00f3pria vida, ao falar por que estavam ali, o que estavam buscando e como chegaram naquele momento era muito mais interessante. Essas palestras foram pouco a pouco ficando cada vez menores para as pessoas poderem ficar cada vez mais tempo falando quem elas eram. Gradualmenten esse encontro virou um encontro que chamo de escutat\u00f3ria. As pessoas falavam sem ser interrompidas. A fala correta, o manter silencio e a aten\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito importantes na minha vida e fazem parte da minha pr\u00e1tica no templo. Fui trazendo isso pra guiar as conversas com aquelas pessoas, oito aos atr\u00e1s. Fui colocando algumas regras para ajudar o fluxo e criei as pr\u00e1ticas de aten\u00e7\u00e3o. Nesse encontro, a gente pratica o que est\u00e1 neste livro. O livro surgiu dos encontros, que \u00e9 mambembe por defini\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tenho agente, nem contrato. \u00c9 um encontro que fa\u00e7o no quintal das pessoas, no ch\u00e3o da sala de algu\u00e9m. Tem gratuidade. E as pessoas pagam o que quiserem. Muitas n\u00e3o pagam. E isso faz parte da minha pr\u00e1tica zen. Muitas pessoas oferecem de fazer em escrit\u00f3rio, sala de reuni\u00e3o&#8230; Eu agrade\u00e7o, mas n\u00e3o aceito porque o clima n\u00e3o \u00e9 conivente. N\u00e3o quero falar em lugares de neg\u00f3cios. A vibe \u00e9 anticonsumismo.<\/p>\n<p><strong>4. O que voc\u00ea acha que nos barra de olharmos para o outro com aten\u00e7\u00e3o e cuidado? <\/strong><\/p>\n<p>O livro vai em uma proje\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o me engano, a \u00faltima ou a pen\u00faltima pr\u00e1tica \u00e9 desapegar do eu ou o ego. O grande problema \u00e9 a impot\u00e2ncia que a gente d\u00e1 para essa coisa enorme, incr\u00edvel e maravilhosa que a gente chama de si mesmo. \u00c9 dif\u00edcil se preocupar e se engajar politicamente com o outro se a gente est\u00e1 sempre t\u00e3o preocupado com a entidade que tem de ser promovida e divulgada. Ser\u00e1 que essa pessoa acha que sou gostosa e inteligente? Ser\u00e1 que n\u00e3o gosta de mim? Se fala mal de mim, tenho que falar mal dele. Todas essas loucuras cru\u00e9is que a gente faz com o outro v\u00eam desse eu. Porque a gente acha que existe essa entidade concreta do eu que tem de ser protegida a todo custo. Tenho que fazer coisas para proteger e fico muito absorvido. O grande problema \u00e9 que muitas vezes no Ocidente, como a gente \u00e9 muito egoc\u00eantrico, o budismo acaba virando uma ferramenta egoc\u00eantrica. Muita gente usa o budismo para virar um executivo mais din\u00e2mico, para ficar mais em paz. Tudo eu, eu, eu. No ocidente, o busimo \u00e9 muitas vezes usado para fins de fortalecer o eu ao inv\u00e9s de desapegar do eu. \u00c9 por isso que acho muito importante falar de budismo engajado. Meu livro \u00e9 de budismo engajado porque a gente se desapega do eu olhando para outro, quando voc\u00ea de fato est\u00e1 presente politicamente para o outro. Ao fazer isso, o seu eu some. As duas coisas acontecem ao mesmo tempo. Eu sou artista e escritor. Tenho um ego gigantesco. Estou nesse caminho e fiz este livro porque tenho um ego gigantesco e estou tentando trabalhar isso todo dia. Por exemplo, eu falar com voc\u00ea para promover o meu livro e o meu nome&#8230; Olha que ego. Tudo ego. Mas falar com voc\u00ea pode fazer com que mais pessoas leiam o livro e isso as ajude a desapegar do ego. Mas muitas vezes estou indo no caminho oposto. \u00c9 uma coisa bem contradit\u00f3ria escrever sobre isso e tenho bastante no\u00e7\u00e3o da contradi\u00e7\u00e3o. Vou passar a tarde varrendo o templo para compensar. Eu, como artista e zen budista, acho muito importante estar dispon\u00edvel e aberto para as pessoas. Tenho um hor\u00e1rio de visitas na minha casa. \u00c9 de segunda \u00e0 sexta, das 17h \u00e0s 19h. Nessa hora, qualquer um que queria me visitar eu recebo, falo, converso e escuto. Quando chega algu\u00e9m que n\u00e3o conhe\u00e7o e nunca vi, que tem problema e quer conversar, ela fala comigo por horas e conta coisas importantes. Fiquei duas horas sem pensar em mim. Durante 2h ou 3h a pessoa ficou na minha casa e me coloquei 100% presente e dispon\u00edvel para ela. Com ela, foi f\u00e1cil conseguir desapegar do meu eu. Porque eu estava realmente ali, 100% com ela, ouvindo, presente naquilo que ela estava me trazendo. A pen\u00faltima pr\u00e1tica do livro \u00e9 desapegar do eu. A \u00faltima \u00e9 dar um passo, fazer alguma coisa politicamente pelo mundo. O livro caminha para isso. Vai dando mais e mais aten\u00e7\u00e3o para o outro. N\u00e3o digo o que as pessoas t\u00eam que fazer porque n\u00e3o sei o que fazer. Mas a gente tem que fazer alguma coisa de pol\u00edtica no mundo e de engajamento no mundo. Cada um vai saber o que fazer dependendo da sua vontade e da sua capacidade. O problema \u00e9 o eu. E se voc\u00ea de fato se engaja no outro voc\u00ea consegue desapegar do eu, voc\u00ea consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Se voc\u00ea est\u00e1 meditando sozinho, s\u00f3 voc\u00ea e voc\u00ea, naturalmente o seu foco vai ser em voc\u00ea. \u00c9 muito dif\u00edcil meditar sozinho com o foco no outro. O importante \u00e9 ter esses dois processos simult\u00e2neos.<\/p>\n<p><strong>5. Como incorporar a sua proposta de aten\u00e7\u00e3o como h\u00e1bito, e n\u00e3o como modismo que funciona pontualmente para determinado momento ou dificuldade?<\/strong><\/p>\n<p>O objetivo de qualquer jornada espiritual \u00e9 virar sua vida de cabe\u00e7a para baixo. Se voc\u00ea pratica no tembplo, se voc\u00ea medita no templo, se voc\u00ea fez peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00cdndia, trouxe Buda, colocou na sua sala na Vila Madalena, mas sua vida continua rigorosamente igual, trabalhando, falando e andando do mesmo jeito, ent\u00e3o n\u00e3o funcionou. Voc\u00ea s\u00f3 mudou a decora\u00e7\u00e3o da sua casa. O objetivo sempre \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o da vida em prol do outro. Se ficar igual, n\u00e3o est\u00e1 dando certo. Qualquer pr\u00e1tica para virar h\u00e1bito demora. O livro \u00e9 composto por 20 pr\u00e1ticas de aten\u00e7\u00e3o. Todas s\u00e3o pr\u00e1ticas que podemos fazer no dia a dia. \u00c9 sobre debater menos, emitir menos opini\u00e3o, aceitar a realidade, ficar mais no sil\u00eancio, ser generoso com o outro&#8230; Todas s\u00e3o pr\u00e1ticas que podemos fazer no dia a dia. Mas \u00e9 um trabalho. \u00c9 um come\u00e7o. \u00c9 voc\u00ea ler para praticar. S\u00e3o coisas bobas, do tipo: se abrir para pessoas que v\u00eam falar com voc\u00ea. Por exemplo, ando na rua, em S\u00e3o Paulo e no Rio de Janeiro, desviando olho de mendigo que vem falar comigo. Sempre que algu\u00e9m vinha falar comigo, eu respondia: N\u00e3o posso. Ent\u00e3o me impus a seguinte regra: n\u00e3o vou invisibilizar ningu\u00e9m. Qualquer pessoa que venha falar comigo, n\u00e3o vou nem mentir nem invisibilizar ningu\u00e9m. Eu paro e falo: &#8216;mo\u00e7o, diga, me conta a sua hist\u00f3ria&#8217;. N\u00e3o faz diferen\u00e7a se \u00e9 mentira ou verdade. Tem um ser humano ali que veio falar comigo. Sou um ser humano igual e ele. Na medida do meu poss\u00edvel, vou parar e no m\u00ednimo ouvir o que ele tem para dizer. E no m\u00ednimo vou dizer n\u00e3o. Vou tratar como uma pessoa. E n\u00e3o vou mentir para ele. Se eu tiver R$ 5, eu dou. Mesmo se for mentira. Alguma coisa deu errada para ele estar na rua inventando aquela mentira. De um jeito ou de outro, \u00e9 uma pessoa que precisa de ajuda. Se a hist\u00f3ria \u00e9 verdadeira ou n\u00e3o, o fato \u00e9 que a vidad dele chegou num ponto em que precisa ir para a rua para mentir. Se n\u00e3o quiser dar dinheiro, s\u00f3 falo: &#8216;Desculpa, n\u00e3o vou dar, com licen\u00e7a&#8217;. Eu me odiava andando pela rua invisibilizando pessoas, querendo n\u00e3o falar. Isso \u00e9 uma pr\u00e1tica de aten\u00e7\u00e3o que tenho feito. N\u00e3o recomendo para todo mundo. E sei que isso \u00e9 tamb\u00e9m um pribil\u00e9gio masculino. Sou um cara branco, privilegiado e homem. Tudo que falo neste livro \u00e9 para mim. Essas pr\u00e1ticas eu inventei para resolver os meus problemas. Tem uma pr\u00e1tica de acumular menos porque sou um cara mimado e consumista. Tem uma pr\u00e1tica de aceitar a realidade porque sou um cara mimado que quer sempre as coisas do meu jeito. Mas n\u00e3o digo que ningu\u00e9m tem que seguir essas pr\u00e1ticas, ainda mais vivendo em um pa\u00eds pobre. Tento acumular menos porque eu sou uma pessoa consumista e acumuladora. Jamais diria para uma pessoa pobre que est\u00e1 saindo da pobreza que ela tem de acumular menos. Tem tamb\u00e9m a pr\u00e1tica de ser mais generoso. Jamais diria para um negro ou para uma mulher que eles t\u00eam de ser generosos com algu\u00e9m que os agrediu. O livro sou eu falando o que eu fa\u00e7o. Fa\u00e7o isso sendo a pessoa que sou. Vai caber a cada leitor e leitora dizer o que pode ou n\u00e3o fazer, seja porque n\u00e3o quer, seja porque n\u00e3o faz sentido na vida dessa pessoa. O livro \u00e9 um livro pol\u00edtico. Foi muito importante n\u00e3o ser livro alienadinho de burgu\u00eas odara. O livro a todo momento lembra a pessoa leitora que tem gente l\u00e1 fora sem ter o que comer. O \u00fanico objetivo de querer praticar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e9 poder cuidar das pessoas que t\u00eam menos do que a gente de qualquer maneira poss\u00edvel e imaginada. Se forem coisas que fa\u00e7o por mim e para mim, n\u00e3o faz sentido. \u00c9 por isso que o subt\u00edtulo \u00e9 &#8216;Por uma pol\u00edtica do cuidado&#8217;. A coisa toda \u00e9 pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>6. Pol\u00edtica no sentido de ser engajada e sair do eu?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o existe pol\u00edtica individual do eu sozinho no mato. Quando falo pol\u00edtica, \u00e9 engajamento no mundo com essas pessoas que n\u00e3o sou eu. Neste sentido, o livro \u00e9 todo pol\u00edtico porque sempre vai bater na tecla: \u00e9 muito legal voc\u00ea ser emp\u00e1tico, mas o que voc\u00ea est\u00e1 de fato fazendo? Com quem voc\u00ea est\u00e1 interagindo?<\/p>\n<p><strong>7. Quais questionamentos seriam importantes que as pessoas se fizessem para sair do encastelamento da autoajuda?<\/strong><\/p>\n<p>O livro \u00e9 sobre pr\u00e1ticas de aten\u00e7\u00e3o. A ideia \u00e9 ser um livro pr\u00e1tico, sugerindo 20 pr\u00e1ticas que qualquer pessoa pode fazer no dia a dia para prestar mais aten\u00e7\u00e3o no outro, se ouvir, falar melhro&#8230; De v\u00e1rias maneiras diferentes. Acho muito legal a gente se autodesenvolver, ter empatia. Mas a ideia central do livro \u00e9 que tudo isso, se n\u00e3o levar \u00e0 a\u00e7\u00e3o concreta, \u00e9 complac\u00eancia de pessoa privilegiada e rica. Ir para a \u00cdndia e botar o Buda na sala n\u00e3o muda nada. Essas pr\u00e1ticas s\u00e3o sugest\u00f5es que s\u00e3o s\u00f3 o come\u00e7o do come\u00e7o do come\u00e7o. A 20\u00aa pratica \u00e9 dar um passo. As 19 pr\u00e1ticas primeiras s\u00e3o prepara\u00e7\u00f5es para levar a pessoa para chegar em uma condi\u00e7\u00e3o e um momento de poder dar um passo de forma mais efetiva. E muito importante \u00e9 dizer que eu nunca digo para as pessoas o que elas devem fazer. Vou sugerir pr\u00e1ticas que fa\u00e7o, tipo tentar ouvir mais e enxergar mais. N\u00e3o s\u00e3o nem 20 pr\u00e1ticas que fa\u00e7o, mas que tento fazer, melhor dizendo. N\u00e3o sou um mestre ensinando para as multid\u00f5es como ser perfeito. N\u00e3o domingo essas 20 pr\u00e1ticas. Bolei as pr\u00e1ticas porque acho que eu, arrogante, vaidoso, narcisista, mimado e egoc\u00eantrico, acho que preciso delas. N\u00e3o s\u00e3o 20 pr\u00e1ticas que dominei e que ensino para quem n\u00e3o sabe. S\u00e3o 20 pr\u00e1ticas que pratico todo dia porque sou todo errado e estou tentando deixar de ser.<\/p>\n\n\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(por Juliana Di\u00f3genes\/O Estado de S\u00e3o Paulo) Aten\u00e7\u00e3o. Sua aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 100% neste texto ou nas contas para pagar, na chatea\u00e7\u00e3o com algu\u00e9m ou nas preocupa\u00e7\u00f5es com o trabalho? 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